sábado, 21 de Novembro de 2009

"A triste história do zero poeta", de Manuel António Pina

A si mesmo se dedica

Numa certa conta havia
um zero dado à poesia
que tinha um sonho secreto:
fugir para o alfabeto.

Sonhava tornar-se um O
nem que fosse um dia só,
ou ainda menos: só
o tempo de dizer: «Oh!»

(Nos livros e nas selectas
o que mais o comovia
eram os «Ohs!» que os poetas
metiam nas poesias!)

Um «Oh!» lírico & profundo,
um só «Oh!» lhe bastaria
para ele dizer ao mundo
o que na alma lhe ia!

E o que na alma lhe ia!
Sonhos de glórias, esperanças,
ânsias, melancolia,
recordações de criança;

além de um grande vazio
de tipo existencial
e de uma caixa que o tio
lhe pedira para guardar;

e ainda as chaves do carro
e uma máscara de entrudo...
Não tinha bolsos, coitado,
guardava na alma tudo!

A alma! Como queria
gritá-la num «Oh!» sincero!
Mas não passava de um zero
que, oh!, não se pronuncia...

Daí que andasse doente
de grave doença poética
e em estado permanente
de ansiedade alfabética.

E se indignasse & etc.
contra o destino severo
que fizera dele um zero
com uma alma de letra!

Tanta ambição desmedida,
tanto sonho feito pó!
E aquele zero dava a vida
para poder dizer «Oh!»...

(in Pequeno Livro da Desmatemática)

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

"A mosca", de Ogden Nash

Deus criou a mosca
Num momento de inspiração
Mas depois esqueceu-se de nos dizer
Por que razão

(in Poemas com Asas; poema transposto por Jorge Sousa Braga)

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

"A minha mãe não me deixa ter um coelho", de Brian Patten

à AJ

A minha mãe não me deixa ter um coelho
Nem que seja um coelho-anão
Não me deixa ter um hamster
Um porco-espinho ou um cão

Não posso ter pombos-correio
Muito menos um rouxinol
Não posso ter um melro
Nem um simples caracol

Não me deixa ter uma cascavel
Ou uma víbora debaixo da cama
Não me deixa ter uma gibóia
Um camelo ou um lama

Não me deixa ter um urso
E não sei por que é que se riu de mim
Quando lhe disse que queria ter uma iguana
Um mangusto ou um pangolim

Não posso ter uma barata
Muito menos um sardão
Não posso ter uma bicha-cadela
Um gusano ou um furão

Não posso ter um gnu
E isto só me acontece a mim
Não posso ter um tatu
Um panda ou um pinguim

Não me deixa ter piranhas
E o que me faz mais pena
É que não me deixe ter um morcego
Um mabeco ou uma hiena

Por isso tenho uma formiga de estimação
No jardim e lá ao fundo na arrecadação
Escondido por detrás da estante
Um secreto elefante

(in Poemas com Asas; poema transposto por Jorge Sousa Braga)

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

"Ecos", de Ana Luísa Amaral

Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades

(in Se fosse um intervalo)

(Cada vez mais raras)

(Agora, são cada vez mais raras as palavras. Ficam os gestos, em negativo, na memória - e o que é a memória? Ah, os ecos que me chegam principalmente quando o que sobra do mundo se depositou no fundo do dia... Descubro-te, ó poema.)

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Excerto de "To a hand"/"Àquela mão", de Alexandre Search

Give me thy hand. With my wounded eyes
I would see what this hand contains.
Ah, what a world of hopes here lies!
What a world of feelings and doubs and pains!
Oh to think that this hand in itself contains
The mystery of mysteries.

(...)

* * *

Dá-me a tua mão. Com meus olhos feridos
Eu quero ver o que esta mão contém:
Ah, um mundo de esperanças está aqui!
De sentimentos, dúvidas e dores!
Oh, pensar que esta mão possa conter
O mistério dos mistérios em si.

(...)

(in Poesia de Alexandre Search, trad. Luísa Freire)

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

(Será)

(Será que as últimas palavras cairão entre nós? Era uma vez um poema - o leitor, porém, ficava cada vez mais para trás...)

(Quase impossível)

sábado, 12 de Setembro de 2009

"Docemente", de Maria Teresa Horta

Docemente
disponho dos teus braços

dos peixes que navegam
docemente

Docemente
disponho em minha face

a faca dos teus olhos
docemente

Docemente
canso, disponho do cansaço

primeiro do teu afago
docemente

Docemente
afago, a tua boca apago

e vou negando a minha
docemente

(in Poesia Reunida)

sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

(Mesmo sendo um pouco deslocado...)